terça-feira, 17 de novembro de 2009

Encontraram uma jovem morta

Acharam uma jovem morta
enforcou-se à noite, sob a luz lunar
ao som de Mozart.
Quando encontraram-na
dolorosas notas de piano
faziam pensar na solidão
e numa sala escura num dia de chuva.
Em seu bolso, três papéis:
um poema de Florbela Espanca
um bilhete suicida
e uma carta de amor
que nunca chegou a enviar.

Flantuares

terça-feira, 10 de novembro de 2009

Uma noite sem álcool

1 hora da manhã
a cerveja acabou
e todos os bares estão fechados
tudo que tenho é um cigarro
que fumo, pesaroso
ouvindo a voz de Renato Russo
sair, triste, do rádio.

A inquietude me sugere alguns versos.

Vez ou outra um carro passa
roncando, estrondoso
ou uma coruja pia em seu voar
e nada mais.

É tão perturbante
uma noite sem álcool.

Flantuares

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

Era uma vez histórias

"Era uma vez"
pousava o timbre calmo de minha mãe
em meus ouvidos.
Eu adormecia antes do final.

Todas as noites, a mesma coisa
"Era uma vez", e eu dormia
sem ouvir o fim da história.

De manhã, ao acordar
sem saber do desfecho
eu inventava um
mamãe mal sabia
que ali nascia meu calvário.

Era uma vez um menino
que começou a inventar histórias
e depois disso
nunca mais dormiu.

Flantuares

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

Após fornicar o dia inteiro

Mais tarde
após fornicarmos o dia inteiro
ela deitou-se, nua, no sofá
"Fará um poema sobre mim?", perguntou-me
"Já o fiz", respondi.
Olhou-me, surpresa
e tudo pareceu calar-se
para ouvir suas palpitações.

Flantuares

sábado, 3 de outubro de 2009

A vida segue a mesma, insuportável

2001:
o corinthians era campeão paulista
Bin laden derrubava o World Trade Center
a Argentina atravessava uma crise
o Brasil estava no escuro
eu me embriagava todo dia
e numa rua qualquer
meu pai tombava
fechando seus olhos para sempre.

Flantuares

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

Uma dor de cabeça


As aflições estavam piores a cada dia. O médico lhe disse que era por causa da sinusite, uma inflamação na mucosa que causa dores agudas na altura da testa e, em alguns casos, podia atingir o cérebro, afetando o estado psicológico de quem a tem. Isto explicava as perturbações mentais que vinha sofrendo e seu nariz constantemente escorrendo.

Sentado à mesa com dois amigos, Gilberto e Felipe, Murilo se embriagava. Qualquer garrafa de vinho ou cerveja é mais barata que os antibióticos receitados pelo doutor. Por isso, mesmo sabendo que no dia seguinte as terríveis pontadas na cabeça seriam mais dolorosas, ele bebia.

—Porra, Murilo! Pare de passar essa faca na mesa, cara. Está me irritando. —falou Gilberto.


—Ele parece estranho hoje. — observou Felipe.


Eles não sabiam do problema dele.

Com a mente preocupada pela doença, o rapaz continuou a manusear a faca, diante dos olhares curiosos dos outros dois. Seu nariz escorria, mas ele não o assoava. Não se importava mais com isso.

—Cara, que nojo! Por que você não limpa isso? — perguntou um deles.

Murilo não respondeu. Desde que chegara ali, não havia falado nada. Estava quieto, em estado de reflexão profunda.

—Vou buscar mais cerveja. — disse Felipe, se levantando.

De repente, um berro e o barulho de alguém tombando. Felipe que voltava com uma garrafa em cada mão cruzou com Murilo. “Aonde vai?”, perguntou. Nenhuma resposta. Quando chegou ao local onde bebiam encontrou Gilberto caído no chão, esfaqueado.

Flantuares

sexta-feira, 4 de setembro de 2009

Minha mão no teu corpo

Minha mão percorre teu corpo
descontrolada, louca
como quem passeia no Éden
desliza sobre tua forma escultural
e a cada curva que passa, para
encantada
abrasada
extasiada.

Ah! Que furor a envolve
minando lava de seus poros
e ela, desvairada
perde-se de si mesma
no prazer inefável
de tocar tua carne.

Flantuares